Cantando na Chuva, dirigido por Stanley Donen e Gene Kelly é um daqueles musicais que sobreviveram ao tempo e as gerações. Mesmo depois de mais de 50 anos (lançado originalmente em 1952) o filme é ainda hoje referência de um cinema industrial grandioso, glamoroso, divertido, emocionante onde cantar a alegria e o amor eram um negócio extremamente lucrativo.
A trama do filme se passa num momento bastante controverso e interessante da indústria hollywoodiana, o advento do som. Um musical sobre a indústria nos tempos que ainda era muda. Isso por si só já era uma idéia um tanto genial. Mas a indústria que se desenvolve e investe milhões como a do cinema não ficaria muda pra sempre mesmo, e no filme o advento do som acontece logo, apenas servindo de plano de fundo, pra uma história de amor das melhores, pra servir de exmplo, molde e ensinar aos que viriam a seguir, no que diz respeito a como se fazer uma comédia romântica.
Na história Genne Gelly interpreta um astro do cinema mudo que migra pra o cinema falado se tornando um astro cantor da nova e sonora industria do cinema.
Analisemos pois uma seqüência, talvez a mais famosa seqüência da história do cinema mundial. A famosa seqüência onde Genne Kelly, deixando a casa de sua amada Kathy, dispensa seu motorista, e sai caminhando pela noite chuvosa. Ele cumprimenta os poucos que passam por ele aquela hora e dança e canta na chuva. Dança com classe, elegância, estilo, bom humor e em alguns momentos, sem a menor pretensão, chegando a pular nas poças, como uma criançinha.
A seqüência de 4 minutos possui 9 planos, em sua maioria curtos, mas que utilizam o cenário como um todo, pois Genne dança para lá e para cá cobrindo uma distancia relativamente grande. A seqüência tem sim cortes muito perceptíveis mas a sensação de É espetacular o modo como a câmera segue-o a todo momento, o acompanhando quase que como sua parceira dessa magnífica dança molhada. Planos gerais, médios, closes, a câmera dança com o personagem e se aproxima e se afasta a medida que o sua performance exige. São visivelmente utilizados recursos de aproximação/zoom (quando o personagem abre os braços no meio de sua dança), travelling (quase o tempo todo, afinal pra acompanhar um dos maiores dançarinos do cinema só de carrinho) e de grua (especilamente quando o mesmo se retira de cena ao terminar de dançar).
Os cortes da seqüência são simples, e obedecem ao raccord, em especial quando Gene abre os braços pela primeira vez, também quando ele gira o guarda-chuva aberto para frente e quando ele fica embaixo de um cano que jorra água.
O som da seqüência é composto pelo som da chuva, claro, mas é o som da música cantada pelo personagem que tem maior destaque. O som da chuva é mais audível e volumoso no inicio e no fim da seqüência, quando a música ou ainda não iniciou ou estar a cessar. Outros sons, claro, que compõe a seqüência são os dos sapatos do dançarino, dos pulos nas poças de água, de uma grade que é tocada pelo guarda-chuva e do banho embaixo de uma bica.
O cenário é muito bem fabricado e utilizado, chegando a funcionar de coadjuvante do dançarino, que se pendura num poste, dança para uma vitrine, brinca com uma grade usando seu guarda-chuvas e anda de pontinhas de pés na calçada.
A montagem é dinâmica e muito bem resolvida, tendo sido construída de modo a dar ao expectador a sensação de acompanhar Kelly em sua alegre dança.
O personagem de Kelly é alegre e cheio de vida, e ao cantar e dançar enche a tela de alegria e de vida. É o cinema saudando a vida e comemorando as coisas mais comuns e corriqueiras, o amor, o estar-se tão feliz que se tem o desejo de dançar, e uma chuva num fim de noite, que não incomoda, mas apenas esfria e refresca.
Todos os elementos colocados de maneira equilibrada, como uma orquestra em uníssono, fazem desse filme um marco do cinema. Atemporal, porque mesmo com o declínio dos musicais, cantar e dançar sempre será para a humanidade, sinônimo de alegria. Um “filme-máquina” do tempo, que nos leva a um passado, não tão distante, mas que era mágico, alegre, belo e onde dançar na chuva era sinônimo de que estava tudo bem.
Por Alex “Jedi” Silver
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