LEEA


O retorno ao trágico e a soberania do espaço em “Euphoria”
dezembro 9, 2010, 3:23 am
Filed under: Linguagem e Crítica do Cinema

Planícies de perder a vista. Garotos ajudam um cego meio louco a subir numa motocicleta. Ele olha fixamente para frente, ainda que não veja nada. Dá a partida no motor e segue em alta velocidade rumo a lugar algum. Seu rosto é vazio, como os campos ao seu redor.

Uma nuvem descobre o sol e um sorriso aparece no rosto do cego, que segue a sua jornada cada vez mais veloz. O caminho de terra branquíssima se bifurca, mas o cego não escolhe nenhuma das estradas. Não pode escolher. O vemos seguindo em frente, em um longo plano aberto, rumo ao nada.

Nessa primeira seqüência de Euphoria (Rússia, 2006, 71 min, cor), Ivan Vyrypayev parece nos contar sobre onde seu filme vai nos levar, nos contar sobre o destino das suas personagens. Veloz, às cegas, levados através do espaço, afetados pela luz e regidos por uma música única, constante. Nada podem fazer para salvar a si mesmos.

O filme nos conta a história de pessoas pobres, que vivem num vilarejo no interior da Rússia. Cada uma com uma dor muito particular. Se a própria narrativa descortina um futuro trágico para as personagens, a forma como as imagens e sons se desenvolvem ao longo de Euphoria vem atestar que, não importa o que os habitantes da vila façam, seus destinos estão traçados desde o início.

Essa tragicidade se manifesta no filme, para além do roteiro, nas escolhas de Vyrypayev de como filmar o espaço, as grandes planícies cobertas de uma vegetação seca, escura. Em Euphoria o espaço é soberano. Marca os corpos até que esses se confundam em cor e textura com as estepes. Filmado de cima, o espaço também parece um corpo. Antigo, cheio de marcas. Um ancião que existia antes daqueles pequenos habitantes. E que vai continuar existindo quando todos eles se forem.

É esse espaço que, em alguns momentos, separa as personagens por grandes valas que se abrem no chão – os amantes não poderão ficar juntos – e em outros os isola em pequenas ilhas de terra. O chão parece móvel, conspirador.

A pequena seqüencia em que escolhi analisar essa relação entre a forma como o espaço é filmado e o destino trágico das personagens começa com uma jovem mulher, numa espécie de celeiro. Está sentada no que um dia foi uma cama e agora está coberta de areia.  Rosto molhado, ela tem entre as mãos a areia fina que ela deixa escorrer entre os dedos.

Quando a areia acaba, ela pega mais um punhado. Parece nos contar sobre como passam os dias naquele lugar inóspito da Rússia: quanto mais o tempo passa, mais tempo tem para passar.

A moça faz um som com a boca, um assobio constante  que se confunde com o vento. Até que o “quase silêncio” é interrompido pelo grito de uma criança.

Vemos agora uma panorâmica que nos apresenta o espaço fora do celeiro. Durante todo o filme é sempre a apresentação desse espaço, filmado de diversas formas, que media a passagem do tempo.

A câmera vai se movimentando lentamente, até que entre em quadro um pai, com uma menina no colo. Ela teve a mão mordida por um cachorro. É interessante perceber como o movimento da câmera se contrapõe, nesse momento, a todo o desespero e clima caótico que se instaura em cena. Ouvimos latidos, um choro desesperado de criança e os gritos do homem e da mulher tentando agir diante das circunstâncias. A mulher corre de um lado para o outro, entrando e saindo de quadro. Mas a câmera não pára para ela. Esse caminhar da imagem se coloca indiferente a própria condição da criança que grita de dor.

O homem ordena algo a mulher. Ela entra na casa de madeira e sai com uma tesoura e uma garrafa de vodca. Ele se prepara para cortar o dedo da criança que foi mordido pelo cachorro. Os gritos ficam cada vez mais altos. Latidos ao fundo. Ouvimos o “tec” da tesoura. O som cessa e no lugar dele entra a música que acompanha todo o filme.

Esse silenciamento do desespero das personagens e a substituição desses sons caóticos pela música  parece reforçar a idéia do “trágico”. Não importa o que aconteça com aquelas pessoas, o quanto elas sofram ou amem, aquelas planícies não se afetarão.

O que se segue  vem fortalecer ainda mais essa impressão. Vemos do alto, em um plano fixo aberto, duas casinhas sob um sol imponente. Ao longe, pequenas pessoas correm de um lado para o outro. Parecem formigas. Não podemos ouvi-las. Não podemos sequer compreender seu desespero. A filha de um casal perdeu um dedo, mas não importa. Só o sol importa. O sol, sua trajetória e as terras que se estendem ad infinitum.

A seqüência pode ser vista aqui, entre 6:02 e 8:43

http://www.youtube.com/watch?v=oO0CPYSkgt8&feature=player_embedded#!

Por Lara Vasconcelos


2 Comentários até o momento
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Obrigado, Lara…

Comentário por Lucas Medeiros

olá, sou do 2º semestre de comunicação e faço parte da comissão organizadora da semana de recepção dos calouros de 2011.1. Gostaríamos de solicitar um representante do leea para fazer uma pequena apresentação sobre o grupo para os calouros em uma palestra que ocorrerá no dia 15/02 a partir das 14:00 no auditório da biblioteca do centro de humanidade(ch1) por gentileza confirmar presença assim que possível.meu contato grazii.barros@gmail.com

Comentário por graziele barros




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